1.7.12
"Ex-presidentes pedem mudanças nas políticas antidrogas"
Seis ex-presidentes, incluindo Fernando Henrique Cardoso, apoiaram um novo relatório que será apresentado nesta terça-feira, em Londres, que pede à comunidade internacional mudanças em sua política antidrogas baseada na repressão visando deter a propagação do vírus da Aids.
A Comissão Global de Políticas de Drogas é composta por cerca de 20 personalidades mundialmente reconhecidas, entre elas os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria, da Colômbia, Ernesto Zedillo, do México, Ricardo Lagos, do Chile, Aleksander Kwasniewski, da Polônia, e Ruth Dreifuss, da Suíça, o prêmio Nobel de Literatura peruano Mario Vargas Llosa, o ex-alto representante da Política Externa da União Europeia Javier Solana, e o ex-secretário de Estado americano George Shultz.
"A guerra mundial contra as drogas está impulsionando a pandemia de HIV/Aids entre os consumidores de drogas e seus parceiros sexuais", afirma o documento apresentado pela Comissão Global de Políticas de Drogas a um mês da realização de uma conferência internacional sobre a Aids em Washington.
Segundo o relatório, diversas investigações evidenciaram que as políticas repressivas contra as drogas aplicadas ainda em vários países levam os usuários a prescindir dos serviços de saúde pública e os colocam em situações de marginalização que aumentam o risco de contágio.
"A prisão em massa de infratores não violentos da legislação antidrogas também desempenha um papel importante no aumento do risco de contrair HIV", completa o relatório.
O documento critica em particular países como Estados Unidos, Rússia e Tailândia, acusados de "ignorar" as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) em matéria de prevenção do HIV, com "consequências devastadoras".
A Comissão pede às Nações Unidas, patrocinadora da próxima conferência através de sua agência UNAIDS, a reconhecer a existência desta relação entre a chamada guerra contra as drogas e a propagação do HIV/Aids e a pressionar todos os países para que atuem nesse sentido.
Os governos por sua vez devem implementar medidas de prevenção, como a distribuição de agulhas hipodérmicas esterelizadas para os consumidores de drogas injetáveis, e tratamentos de substituição como a metadona para os heroinômanos, afirma a Comissão, destacando o "dramático declive" registrado na epidemia de HIV nos locais onde já se aplicam.
"Atuem urgentemente: a guerra contra as drogas fracassou, e milhões de novas infecções por HIV e mortes pela Aids podem ser evitadas se agirem agora", concluiu em suas recomendações.
A 19ª Conferência Internacional sobre Aids, que deve reunir cientistas e especialistas em saúde pública, ocorrerá em Washington de 22 a 27 de julho de 2012.
Fonte: AFP
"Legalização da maconha viola acordo, diz ONU"
O Escritório da ONU (Organização das Nações Unidas) contra as Drogas e o Delito alertou nesta terça-feira o governo do Uruguai para a violação da convenção da organização sobre entorpecentes caso o país sul-americano legalize a produção e distribuição de maconha, como proposto na última quarta (20).
"Se o governo a legaliza, seria uma grave violação da Convenção Única, e o Uruguai é um Estado que faz parte dela", afirmou o diretor do escritório sobre drogas da ONU, Yuri Fedótov.
Fedótov declarou não ter visto nenhum documento concreto com os passos pretendidos por Montevidéu, mas lembrou que a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes enviará uma missão urgente ao país para discutir o assunto com o governo uruguaio.
Na última quarta (20), o Uruguai apresentou um projeto de lei para a legalização controlada da maconha, em uma medida para tentar diminuir a criminalidade decorrente do narcotráfico. A intenção é que o Estado seja o responsável pela venda dos cigarros da droga, com cobrança de impostos.
O Estado fará redes de distribuição estatais, com registro de consumidores, assim como existe na Holanda. O consumo e o porte, que não eram penalizados no país, serão regulados pelas autoridades.
O governo também será o responsável pela certificação de qualidade da droga e existirá um limite determinado por lei, que deve ser de 40 cigarros por mês. Caso o usuário ultrapasse a quantidade estabelecida, será submetido a tratamento de reabilitação.
REDUÇÃO
A medida faz parte de um grupo de 16 projetos para diminuir o tráfico e o consumo de pasta base de cocaína, uma das principais drogas em países do Cone Sul. A intenção é diminuir os efeitos do narcotráfico sobre a segurança pública, além da arrecadação das quadrilhas.
O projeto será avaliado pelo Parlamento do país e tem a aprovação da chamada Frente Ampla, do presidente José Mujica.
"Temos que experimentar o caminho da legalização para ver o que acontece, porque se alguém quer se drogar é difícil convencer que largue e com repressão não se consegue nada", afirmou o deputado Álvaro Vega.
Ainda não há previsão sobre o uso da droga por estrangeiros, incluindo os que moram em cidades fronteiriças, como os casos de Santana do Livramento e Atlântico (RS).
Caso seja aprovada, será a primeira medida do tipo em toda a América Latina, região que sofre com as consequências do tráfico de drogas para a segurança pública. Cartéis da droga, como o de Cáli, na Colômbia, e Los Zetas, no México, causaram a morte de milhares de pessoas.
Em virtude do aumento da violência, lideranças da região, como os ex-presidentes do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e do México, Vicente Fox, se manifestaram favoráveis à legalização como forma de corrigir os conflitos armados.
Fonte: Das Agências de Notícias
Declaração sobre a Ayahuasca por 8 autores
Há 60 anos, a prestigiosa revista acadêmica Science publicou uma “Declaração sobre o Peiote” (Statement on Peyote) (La Barre et al., 1951), na qual vários pesquisadores importantes, consternados pelas enganosas e demonizadoras políticas sobre drogas da época, defenderam o direito de a Native American Church (NAC) consumir uma planta psicodélica em seus rituais religiosos. Hoje em dia, sentimo-nos igualmente compelidos a nos manifestar em favor de uma tradição religiosa análoga, não indígena, – as religiões ayahuasqueiras brasileiras, incluindo o Santo Daime, a União do Vegetal (UDV) e outros grupos similares (Dawson, 2007; Labate & MacRae, 2010). Estudamos vários usos rituais da ayahuasca, participamos de cerimônias e experimentamos a bebida sacramental.
À medida que as religiões ayahuasqueiras migraram nas últimas décadas da América do Sul para a América do Norte, Europa e Ásia, seus membros sofreram prisões, processos criminais e estigmatização como “usuários de drogas”. Atualmente, os membros do Santo Daime no Reino Unido, Irlanda, Espanha, França e Portugal estão enfrentando acusações criminais e a proteção de liberdade religiosa para os membros do Santo Daime no Canadá permanece incerta e não resolvida (Tupper, 2011). Enquanto isso, nos Estados Unidos os membros do Santo Daime do Oregon estão em negociação com a Secretaria da Justiça (Church v. Holder, 2012) e, em um caso altamente politizado, a UDV recentemente teve negada a permissão para construir um templo no Novo México (Haywood, 2011). Argumentamos que tais barreiras à liberdade da prática religiosa são indefensáveis tanto do ponto de vista legal quanto ético; além disso, da mesma forma que a opressão da NAC (Calabrese, 2004; Hal
pern et
al, 2005), a intolerância contra as religiões ayahuasqueiras brasileiras não se baseia em avaliações racionais de relações entre riscos e benefícios, quer para os praticantes individuais, quer para a segurança pública. Em vez disso, a perseguição das religiões ayahuasqueiras brasileiras tem se baseado em preconceito enganoso contra o uso de substâncias psicodélicas em contextos rituais razoavelmente seguros e socialmente controlados e que constituem tradições e expressões culturais autênticas que devem ser respeitadas enquanto tal. Discutimos aqui as evidências científicas disponíveis sobre tais práticas e argumentamos que os dados justificam basear a regulamentação futura dessas religiões nas políticas brasileiras, que levam em conta o fato de esta bebida psicoativa ser considerada um sacramento nas religiões ayahuasqueiras mais do que uma substância psicotrópica controlada (Labate & Feeney, 2012). Tais políticas mostraram-se bem sucedidas no B
rasil
nas
últimas décadas e permitiram que as religiões ayahuasqueiras desenvolvessem as intrigantes implicações sociais, de saúde e de pesquisa que elas nos apresentam hoje em dia.
A ayahuasca é uma decocção psicodélica feita a partir de plantas nativas da bacia amazônica – na maioria das vezes a Banisteriopsis caapi e a Psychotria viridis – que contêm alcaloides da harmala e a N,Ndimetiltriptamina (DMT), sendo esta última uma substância controlada, classificada nos termos da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 (UN, 1971). Uma literatura acadêmica significativa em inglês sobre a ayahuasca, especialmente sobre seus usos nas religiões ayahuasqueiras, tornou-se disponível apenas nas últimas duas décadas (Labate, Rose & Santos, 2008). Os sistemas de crença das diferentes religiões mesclam tradições cristãs, espíritas, africanas e indígenas com influências de expressões religiosas urbanas contemporâneas. Não há um ritual padrão realizado por todas as religiões ayahuasqueiras, mas há alguns pontos em comum entre os grupos: os rituais normalmente são realizados a cada duas semanas e, frequentemente, têm iní
cio à
noite; os membros das igrejas usam roupas relacionadas aos contextos históricos e culturais nos quais os diversos grupos foram fundados; após as orações iniciais, os líderes religiosos servem ritualmente a cada membro um pequeno copo de ayahuasca, evocativa da distribuição do vinho em outros contextos cristãos; finalmente, os rituais são planejados de forma a durar um pouco mais do que os efeitos psicoativos da ayahuasca (cerca de 4 h). Esses efeitos podem incluir a sensação de uma proximidade íntima com Deus ou outros seres espirituais; uma intensificação geral das emoções, especialmente as de valência positiva (por exemplo, tranquilidade e reverência); uma tendência à introspecção; sensações de lucidez e compreensão aumentadas; e sensações de acuidade perceptual aumentada, acompanhadas de visualizações de olhos fechados com nitidez aumentada. Efeitos somáticos podem incluir sensações de peso ou leveza corporal, náusea, vômitos e diarreia (Ã
©
importante observar que para os praticantes dessas religiões, o vômito está associado à limpeza corporal e espiritual).
No decorrer do tempo, as religiões ayahuasqueiras desenvolveram seus rituais e ensinamentos teológicos a fim de incorporar os fortes efeitos psicológicos da ayahuasca em seus sistemas simbólicos e de práticas, sistemas esses imensamente ricos de significado para os praticantes e significativamente distintos dos usos problemáticos de drogas como o álcool, o tabaco e os opiáceos (isto é, uso associado à dependência, doença debilitadora ou prejuízos sociais). Infelizmente, entretanto, descrições recentes dessas religiões na mídia criaram um sensacionalismo a respeito da ayahuasca, enganosamente descrita como uma perigosa substância de abuso e até erroneamente confundida com DMT pura, e seus danos foram comparados àqueles da metanfetamina (Rommelman & Mesh, 2011; The Sun, 2010; UK Border Agency, 2010).
Contrariamente a essas descrições da ayahuasca e seus efeitos, os poucos estudos biomédicos da saúde física e mental dos membros das religiões ayahuasqueiras falharam em demonstrar evidências de danos decorrentes do consumo da bebida nesses contextos. Os achados dos estudos transversais e caso-controle em usuários de longo prazo da ayahuasca em contexto religioso incluem o seguinte: os efeitos fisiológicos e subjetivos agudos da ayahuasca são relativamente benignos e os adultos com ingestão regular da ayahuasca por mais de uma década na UDV mantêm um funcionamento neurocognitivo normal (Callaway et al., 1999; Grob et al., 1996); há uma relativa ausência de psicopatologia nos membros adultos do Santo Daime (Halpern et al., 2008); os adolescentes que consumiram ayahuasca na UDV no mínimo mensalmente durante dois anos mostram perfis psiquiátricos e neuropsicológicos normais, ausência de uso problemático de drogas e desenvolvimento normal de tomada de decisõe
s morais
(Silveira et al., 2005; Dobkin de Rios et al., 2005; Doering-Silveira, Grob et al., 2005; Doering-Silveira, Lopez et al., 2005); e não foram encontrados sinais de consequências médicas e sociais deletérias em membros a longo prazo do Santo Daime e da Barquinha (Fábregas et al., 2010). Além disso, um estudo prospectivo de novos usuários da ayahuasca detectou melhoras em medidas de saúde mental e dor física seis meses após o início da sua participação nas cerimônias do Santo Daime e da UDV, respectivamente (Barbosa, Cazorla, Giglio & Strassman, 2009). Esses dados são corroborados e contextualizados por uma pletora de estudos etnográficos que comprovam a natureza saudável e funcional dessas comunidades que agora consomem a ayahuasca regularmente por várias gerações (Brissac, 1999; MacRae, 1992; Mercante, 2010).
Os estudos toxicológicos em animais constataram que os constituintes químicos da ayahuasca poderiam ser prejudiciais, mas em dosagens e padrões de ingestão de questionável relevância para aqueles observados nas religiões ayahuasqueiras (Pires, Oliveira & Yonamine, 2010). Enquanto isso, constatou-se que é seguro administrar a ayahuasca liofilizada para seres humanos saudáveis em laboratório (Riba et al., 2001), assim como a DMT pura (Strassman, 1996); e os efeitos agudos da ayahuasca liofilizada para o sistema imunológico de seres humanos ainda são incertos (Santos et al., 2011). A ayahuasca foi usada experimentalmente a fim de induzir uma psicose modelo em seres humanos (Pinto, 2010), embora seja improvável que a ayahuasca e outras substâncias psicodélicas possam induzir um transtorno psicótico por si mesmas; ao contrário, sugere-se que ocasionalmente podem precipitar episódios psicóticos em pessoas com uma predisposição para tais estados (Jones, 2009; St
rassman,
1984). Esta hipótese é corroborada por dados preliminares (coletados e analisados por médicos que são, eles próprios, membros da UDV) que sugerem que a incidência de psicose entre os membros da UDV é semelhante à da população brasileira em geral (Lima & Tófoli, 2011). Não se confirmaram quaisquer mortes como diretamente atribuíveis ao uso da ayahuasca (Gable, 2007).
Além de indicarem ausência geral de dano proveniente do uso religioso da ayahuasca, os estudos biomédicos e etnográficos também produziram provas preliminares em favor dos potenciais terapêuticos da ayahuasca ou seus constituintes para atenuar problemas relativos ao abuso de drogas (Grob et al., 1996; Labate et al., 2010), bem como transtornos de humor e ansiedade (Fortunato et al., 2010; Santos et al., 2007). O estudo da ayahuasca poderia, assim, contribuir para avanços na etnofarmacologia e as ciências cognitivas (Shanon, 2002). Tais estudos são, entretanto, severamente comprometidos quando essas tradições enfrentam a ameaça de sanções legais. O governo federal dos EUA, por meio do Serviço de Saúde Indígena, reconhece a administração das cerimônias de peiote da NAC como um tratamento eficaz e reembolsável para a dependência de drogas (Calabrese, 2004). Este é um interessante exemplo sobre o potencial de pesquisas etnofarmacológicas conduzidas em grup
os
religiosos que fazem uso sacramental de plantas psicodélicas em resultar em terapias oficialmente aceitas e resultados positivos.
A NAC tinha aproximadamente 80 anos quando La Barre et al. publicaram sua “Declaração sobre o Peiote”, denunciando uma campanha política preconceituosa e que induz a erro para tornar ilegal esta tradição religiosa minoritária. Com a proteção legal a ela oferecida, não apenas por motivos médicos, mas também por razões culturais e históricas, a NAC evoluiu nas últimas décadas, tornando-se uma tradição religiosa estável e intergeracional, praticada em toda a América do Norte e que oferece a seus membros experiências espirituais profundamente significativas e benéficas por meio da ingestão ritualizada de uma poderosa planta psicodélica (Stewart, 1987).
Hoje em dia, a forma do uso ritual da ayahuasca que passou a ser conhecido como o das religiões ayahuasqueiras tem igualmente cerca de 80 anos. No Brasil, as religiões ayahuasqueiras foram amplamente autorreguladas em decorrência de investigações do governo federal, que tiveram início na década de 1980, e as quais por diversas vezes constataram que essas religiões contribuem de maneira benéfica para as comunidades nas quais estão inseridas (Labate & Feeney, 2012; Conad, 2010). No Brasil, essas religiões não apenas têm permissão para suas práticas, mas progressivamente vêm sendo reconhecidas como patrimônio cultural, como na declaração de 2006 que reconhece algumas construções do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (a mais antiga religião ayahuasqueira) como parte do “patrimônio histórico” do estado do Acre. De maneira similar, em 2008, o conhecimento e uso tradicionais da ayahuasca pelas comunidades amazônicas nativas foram considerados p
arte do
patrimônio nacional peruano (Labate & Goldstein, 2009). As religiões ayahuasqueiras atualmente praticam sua fé com graus variados de permissão ou tolerância governamental no Canadá, na Holanda, na Espanha e vários outros países em todo o mundo (Labate & Jungaberle, 2011), sem falar nos Estados Unidos, onde a UDV saiu vitoriosa perante a Suprema Corte Norte-Americana em 2006, e o Santo Daime ganhou um processo em nível de tribunal de recurso no estado de Oregon em 2009. Ambas as igrejas, posteriormente, receberam licenças federais para importar e consumir ayahuasca em seus rituais (Labate, 2012). Esta expansão foi auxiliada pelo fato de que o Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas (INCB) não considera a ayahuasca como controlada sob a Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas, quer a de 1971, quer a de 1988 (Tupper & Labate, 2012; UNINCB, 2011).
À luz desses fatos – de que o uso ritualizado da planta psicodélica expandiu-se para fora da Amazônia nas últimas décadas, de que os dados disponíveis sugerem de maneira consistente que essas práticas são razoavelmente seguras e que, além do mais, as considerações de segurança médica e pública devem ser contrabalançadas com considerações sócio-históricas e de direitos humanos, tal como o direito universal de liberdade de religião – instamos as autoridades regulatórias nos países onde as religiões ayahuasqueiras estão atualmente se instalando a demonstrar tolerância e garantir a esses grupos o grau necessário de liberdade jurídica e envolvimento respeitoso, para que eles possam continuar a evoluir e se desenvolver como contribuintes responsáveis e seguros para a sociedade contemporânea multicultural e globalizada.
Referências Bibliográficas:
Barbosa, P. C. R.; Cazorla, I. M.; Giglio, J. S.; Strassman, R. (2009). A six-month prospective evaluation of personality traits, psychiatric symptoms and quality of life in ayahuasca-naive subjects. Journal of Psychoactive Drugs, 41(3), 205-212.
Brissac, S. (1999). A estrela do norte iluminando até o sul. Uma etnografia da União do Vegetal em um contexto urbano (Mestrado em Antropologia Social). Rio de Janeiro: UFRJ/ Museu Nacional.
Calabrese, J. D. (2004). The Supreme Court versus peyote: Consciousness, cultural psychiatry and the dilemma of contemporary subcultures. Anthropology of Consciousness, 12 (set.-dez.), 4-19.
Callaway, J. C.; McKenna, D. J.; Grob, C. S.; Brito, G. S.; Raymon, L. P.; Poland, R. E. et al. (1999). Pharmacokinetics of Hoasca alkaloids in healthy humans. Journal of Ethnopharmacology, 65(3), 243-256.
Church of the Holy Light of the Queen v. Holder, No. 1:08-cv-03095-PA [D. Or., 6 janeiro 2012]. Disponível em: http://www.bialabate.net/wp- content/uploads/2009/04/Santo- Daime Oregon Panner New Order Jan 6 121.pdf.
Silveira, D. X. da; Grob, C. S.; Dobkin de Rios, M.; Doering-Silveira, E.; Alonso, L.K.; Tacla, C. et al. (2005). Ayahuasca in adolescence: a preliminary psychiatric assessment. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 129.
Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad). (2010). Resolução n. 1. 25.01.2010. Diário Oficial da União.
Dawson, A. (2007). New era – New religions: religious transformation in contemporary Brazil. Ashgate: Aldershot.
Dobkin de Rios, M.; Grob, C. S.; Lopez, E.; Silveira, D. X. da; Alonso, L. K.; Doering-Silveira, E. (2005). Ayahuasca in adolescence: qualitative results. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 135–139.
Doering-Silveira, E.; Grob, C. S.; Dobkin de Rios, M.; Lopez, E.; Alonso, L. K.; Tacla, C. et al. (2005). Report on psychoactive drug use among adolescents using ayahuasca within a religious context. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 141-144.
Doering-Silveira, E.; Lopez, E.; Grob, C. S.; Dobkin de Rios, M.; Alonso, L. K.; Tacla, C. et al. (2005). Ayahuasca in adolescence: a neuropsychological assessment. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 123-128.
Fábregas, J. M.; González, D.; Fondevila, S.; Cutchet, M.; Fernández, X.; Barbosa, P. C. R. et al. (2010). Assessment of addiction severity among ritual users of ayahuasca. Drug and Alcohol Dependence, 111(3), 257–261.
Fortunato, J. J.; Réus, G. Z.; Kirsch, T. R.; Stringari, R. B.; Fries, G. R.; Kapczinski, F. et al. (2010). Chronic administration of harmine elicits antidepressant-like effects and increases BDNF levels in rat hippocampus. Journal of Neural Transmission, 117, 1-7.
Gable, R. S. (2007). Risk assessment of ritual use of oral dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids. Addiction, 102(1), 24–34.
Grob, C. S.; McKenna, D. J.; Callaway, J. C.; Brito, G. S.; Neves, E. S.; Oberlaender, G. et al. (1996). Human psychopharmacology of Hoasca: A plant hallucinogen used in ritual context in Brazil. The Journal of Nervous and Mental Disease, 184(2), 86-94.
Halpern, J. H.; Sherwood, A. R.; Hudson, J. I.; Yurgelun-Todd, D.; Pope Jr.; H. G., (2005). Psychological and cognitive effects of long-term peyote use among Native Americans. Biological Psychiatry, 58, 624–631.
Halpern, J. H.; Sherwood, A. R.; Passie, T.; Blackwell, K. C.; Ruttenber, A. J. (2008). Evidence of health and safety in American members of a religion who use a hallucinogenic sacrament. Medical Science Monitor, 14(8), SR15-SR22.
Haywood, P. (2011). County rejects temple for UDV. The New Mexican. Disponível em: http://www.santafenewmexican. com/Local%20News/arroyohondo- County-rejects-UDV-s-project.
Jones, R. T. (2009). Hallucinogen-related disorders. In: Sadock, B. J.; Sadock, V. A.; Ruiz, P. (Eds.). Kaplan and Sadock’s comprehensive textbook of psychiatry. 9. ed. Philadelphia: Lippincott Williams and Wilkins, p. 1331–1340.
La Barre, W.; McAllester, D. P.; Slotkin, J. S.; Stewart, O. C.; Tax, S. (1951). Statement on peyote. Science, 114(2970), 582-583.
Labate, B. C. (2012). Paradoxes of ayahuasca expansion: The UDV-DEA agreement and the limits of freedom of religion. Drugs: Education, Prevention and Policy, 19(1), 19-26.
_______; Feeney, K. (2012). Ayahuasca and the process of regulation in Brazil and internationally: Implications and challenges. International Journal of Drug Policy, 23 (2): 154-161
_______; Goldstein, I. (2009). Ayahuasca – From dangerous drug to national heritage: An interview with Antonio A. Arantes. International Journal Transpersonal Studies, 28, 53-64.
_______; Jungaberle, H. (Eds.). (2011). The internationalization of ayahuasca. Zurich: Lit Verlag.
_______; MacRae, E. (Eds.). (2010). Ayahuasca, ritual and religion in Brazil. London: Equinox.
_______; Rose, I. S.; Santos, R. G. (2008). Religiões ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico. Campinas: Mercado de Letras.
_______; Santos, R. G.; Anderson, B.; Mercante, M.; Barbosa, P. C. R. (2010). The treatment and handling of substance dependence with ayahuasca: Reflections on current and future research. In: Labate, B. C.; MacRae, E. (Eds.). Ayahuasca, ritual and religion in Brazil. London: Equinox. p. 205-227.
Lima, F. A. S.; Tófoli, L. F. (2011). An epidemiological surveillance system by the UDV: Mental health recommendations concerning the religious use of Hoasca. In: Labate, B. C.; Jungaberle, H. (Eds.). The internationalization of ayahuasca. Zurich: Lit Verlag. p. 185-199.
MacRae, E. (1992). Guiado pela Lua. Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo Daime. São Paulo: Brasiliense.
Mercante, M. (2010). Images of healing: Spontaneous mental imagery and healing process of the Barquinha, a Brazilian ayahuasca religious system. Saarbrücken: Lambert Academic Publishing.
Pinto, J. P. (2010). Estudo sobre alterações neurofuncionais após ingestão de ayahuasca (Mestrado em Saúde Mental). Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto.
Pires, A. P.; Oliveira, C. D.; Yonamine, M. (2010). Ayahuasca: uma revisão dos aspectos farmacológicos e toxicológicos. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada, 31(1), 15-23.
Riba, J.; Rodríguez-Fornells, A.; Urbano, G.; Morte, A.; Antonijoan, R.; Montero, M. et al. (2001). Subjective effects and tolerability of the South American psychoactive beverage Ayahuasca in healthy volunteers. Psychopharmacology, 154(1), 85-95.
Rommelman, N.; Mesh, A. (2011). Children of a higher God. WWeek. Disponível em: http://www.wweek.com/portland/ article-17017-children of a highergod.html.
Santos, R. G.; Landeira-Fernandez, J.; Strassman, R. J.; Motta, V.; Cruz, A. P. M. (2007). Effects of ayahuasca on psychometric measures of anxiety, panic-like and hopelessness in Santo Daime members. Journal of Ethnopharmacology, 112(3), 507-513.
Santos, R. G.; Valle, M.; Bouso, J. C.; Nomdedéu, J. F.; Rodríguez-Espinosa, J.; McIlheny, E. H. et al. (2011). Autonomic, neuroendocrine, and immunological effects of ayahuasca: A comparative study with D-amphetamine. Journal of Clinical Psychopharmacology, 31(6), 717-726.
Shanon, B. (2002). The antipodes of the mind: Charting the phenomenology of the ayahuasca experience. New York: Oxford University Press.
Stewart, O. C. (1987). Peyote religion: A history. Norman, OK: University of Oklahoma Press.
Strassman, R. (1984). Adverse reactions to psychedelic drugs: A review of the literature. The Journal of Nervous and Mental Disease, 127(10), 577-595.
Strassman, R. J. (1996). Human psychopharmacology of N,N-dimethyltryptamine. Behavioural Brain Research, 73(1-2), 121-124.
The Sun. (2010). Mind-busting jungle drug hits UK. TheSun.co.uk.
Tupper, K. W. (2011). Ayahuasca, entheogenic education and public policy (Dotourado em Educação). University of British Columbia.
Tupper, K. W.; Labate, B. C. (2012). Plants, psychoactive substances and the INCB: The control of nature and the nature of control. Human Rights and Drugs,2(1), 17-28.
UK Border Agency. (2010). UK Border Agency seizes hallucinogenic drug sent in post. Disponível em: http://www.ukba.homeoffice. gov.uk/sitecontent/ newsarticles/2010/oct/22-ukba- seizes-drugs-via-post.
United Nations. (1971). Convention on psychotropic substances. United Nations. Disponível em: http://www.incb.org/pdf/e/ conv/convention 1971 en.pdf.
United Nations International Narcotics Control Board. (2011). Report of the International Narcotics Control Board for 2010.UN Publication sales No. E.11.XI.1. Disponível em: http://www.incb.org/pdf/ annual-report/2010/en/AR 2010 English.pdf.
Brian T. Anderson (**)
Stanford School of Medicine, Stanford, USA
Beatriz C. Labate
Institute of Medical Psychology, Heidelberg University, Heidelberg, Germany
Matthew Meyer
Department of Anthropology, University of Virginia, Charlottesville, USA
Kenneth W. Tupper
School of Population and Public Health, University of British Columbia, Vancouver, Canada
Paulo C.R. Barbosa a,b
a) Departamento de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, BA, Brasil
b) Department of Psychiatry, University of New Mexico, Albuquerque, USA
Charles S. Grob a,b
a) Department of Psychiatry, Harbor-UCLA Medical Center, Torrance, USA
b) Department of Pediatrics, Harbor-UCLA Medical Center, Torrance, USA
Andrew Dawson
Department of Politics, Philosophy & Religion, Lancaster University, Lancaster, UK
Dennis McKenna
Center for Spirituality and Healing, University of Minnesota, Minneapolis, USA
À medida que as religiões ayahuasqueiras migraram nas últimas décadas da América do Sul para a América do Norte, Europa e Ásia, seus membros sofreram prisões, processos criminais e estigmatização como “usuários de drogas”. Atualmente, os membros do Santo Daime no Reino Unido, Irlanda, Espanha, França e Portugal estão enfrentando acusações criminais e a proteção de liberdade religiosa para os membros do Santo Daime no Canadá permanece incerta e não resolvida (Tupper, 2011). Enquanto isso, nos Estados Unidos os membros do Santo Daime do Oregon estão em negociação com a Secretaria da Justiça (Church v. Holder, 2012) e, em um caso altamente politizado, a UDV recentemente teve negada a permissão para construir um templo no Novo México (Haywood, 2011). Argumentamos que tais barreiras à liberdade da prática religiosa são indefensáveis tanto do ponto de vista legal quanto ético; além disso, da mesma forma que a opressão da NAC (Calabrese, 2004; Hal
pern et
al, 2005), a intolerância contra as religiões ayahuasqueiras brasileiras não se baseia em avaliações racionais de relações entre riscos e benefícios, quer para os praticantes individuais, quer para a segurança pública. Em vez disso, a perseguição das religiões ayahuasqueiras brasileiras tem se baseado em preconceito enganoso contra o uso de substâncias psicodélicas em contextos rituais razoavelmente seguros e socialmente controlados e que constituem tradições e expressões culturais autênticas que devem ser respeitadas enquanto tal. Discutimos aqui as evidências científicas disponíveis sobre tais práticas e argumentamos que os dados justificam basear a regulamentação futura dessas religiões nas políticas brasileiras, que levam em conta o fato de esta bebida psicoativa ser considerada um sacramento nas religiões ayahuasqueiras mais do que uma substância psicotrópica controlada (Labate & Feeney, 2012). Tais políticas mostraram-se bem sucedidas no B
rasil
nas
últimas décadas e permitiram que as religiões ayahuasqueiras desenvolvessem as intrigantes implicações sociais, de saúde e de pesquisa que elas nos apresentam hoje em dia.
A ayahuasca é uma decocção psicodélica feita a partir de plantas nativas da bacia amazônica – na maioria das vezes a Banisteriopsis caapi e a Psychotria viridis – que contêm alcaloides da harmala e a N,Ndimetiltriptamina (DMT), sendo esta última uma substância controlada, classificada nos termos da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 (UN, 1971). Uma literatura acadêmica significativa em inglês sobre a ayahuasca, especialmente sobre seus usos nas religiões ayahuasqueiras, tornou-se disponível apenas nas últimas duas décadas (Labate, Rose & Santos, 2008). Os sistemas de crença das diferentes religiões mesclam tradições cristãs, espíritas, africanas e indígenas com influências de expressões religiosas urbanas contemporâneas. Não há um ritual padrão realizado por todas as religiões ayahuasqueiras, mas há alguns pontos em comum entre os grupos: os rituais normalmente são realizados a cada duas semanas e, frequentemente, têm iní
cio à
noite; os membros das igrejas usam roupas relacionadas aos contextos históricos e culturais nos quais os diversos grupos foram fundados; após as orações iniciais, os líderes religiosos servem ritualmente a cada membro um pequeno copo de ayahuasca, evocativa da distribuição do vinho em outros contextos cristãos; finalmente, os rituais são planejados de forma a durar um pouco mais do que os efeitos psicoativos da ayahuasca (cerca de 4 h). Esses efeitos podem incluir a sensação de uma proximidade íntima com Deus ou outros seres espirituais; uma intensificação geral das emoções, especialmente as de valência positiva (por exemplo, tranquilidade e reverência); uma tendência à introspecção; sensações de lucidez e compreensão aumentadas; e sensações de acuidade perceptual aumentada, acompanhadas de visualizações de olhos fechados com nitidez aumentada. Efeitos somáticos podem incluir sensações de peso ou leveza corporal, náusea, vômitos e diarreia (Ã
©
importante observar que para os praticantes dessas religiões, o vômito está associado à limpeza corporal e espiritual).
No decorrer do tempo, as religiões ayahuasqueiras desenvolveram seus rituais e ensinamentos teológicos a fim de incorporar os fortes efeitos psicológicos da ayahuasca em seus sistemas simbólicos e de práticas, sistemas esses imensamente ricos de significado para os praticantes e significativamente distintos dos usos problemáticos de drogas como o álcool, o tabaco e os opiáceos (isto é, uso associado à dependência, doença debilitadora ou prejuízos sociais). Infelizmente, entretanto, descrições recentes dessas religiões na mídia criaram um sensacionalismo a respeito da ayahuasca, enganosamente descrita como uma perigosa substância de abuso e até erroneamente confundida com DMT pura, e seus danos foram comparados àqueles da metanfetamina (Rommelman & Mesh, 2011; The Sun, 2010; UK Border Agency, 2010).
Contrariamente a essas descrições da ayahuasca e seus efeitos, os poucos estudos biomédicos da saúde física e mental dos membros das religiões ayahuasqueiras falharam em demonstrar evidências de danos decorrentes do consumo da bebida nesses contextos. Os achados dos estudos transversais e caso-controle em usuários de longo prazo da ayahuasca em contexto religioso incluem o seguinte: os efeitos fisiológicos e subjetivos agudos da ayahuasca são relativamente benignos e os adultos com ingestão regular da ayahuasca por mais de uma década na UDV mantêm um funcionamento neurocognitivo normal (Callaway et al., 1999; Grob et al., 1996); há uma relativa ausência de psicopatologia nos membros adultos do Santo Daime (Halpern et al., 2008); os adolescentes que consumiram ayahuasca na UDV no mínimo mensalmente durante dois anos mostram perfis psiquiátricos e neuropsicológicos normais, ausência de uso problemático de drogas e desenvolvimento normal de tomada de decisõe
s morais
(Silveira et al., 2005; Dobkin de Rios et al., 2005; Doering-Silveira, Grob et al., 2005; Doering-Silveira, Lopez et al., 2005); e não foram encontrados sinais de consequências médicas e sociais deletérias em membros a longo prazo do Santo Daime e da Barquinha (Fábregas et al., 2010). Além disso, um estudo prospectivo de novos usuários da ayahuasca detectou melhoras em medidas de saúde mental e dor física seis meses após o início da sua participação nas cerimônias do Santo Daime e da UDV, respectivamente (Barbosa, Cazorla, Giglio & Strassman, 2009). Esses dados são corroborados e contextualizados por uma pletora de estudos etnográficos que comprovam a natureza saudável e funcional dessas comunidades que agora consomem a ayahuasca regularmente por várias gerações (Brissac, 1999; MacRae, 1992; Mercante, 2010).
Os estudos toxicológicos em animais constataram que os constituintes químicos da ayahuasca poderiam ser prejudiciais, mas em dosagens e padrões de ingestão de questionável relevância para aqueles observados nas religiões ayahuasqueiras (Pires, Oliveira & Yonamine, 2010). Enquanto isso, constatou-se que é seguro administrar a ayahuasca liofilizada para seres humanos saudáveis em laboratório (Riba et al., 2001), assim como a DMT pura (Strassman, 1996); e os efeitos agudos da ayahuasca liofilizada para o sistema imunológico de seres humanos ainda são incertos (Santos et al., 2011). A ayahuasca foi usada experimentalmente a fim de induzir uma psicose modelo em seres humanos (Pinto, 2010), embora seja improvável que a ayahuasca e outras substâncias psicodélicas possam induzir um transtorno psicótico por si mesmas; ao contrário, sugere-se que ocasionalmente podem precipitar episódios psicóticos em pessoas com uma predisposição para tais estados (Jones, 2009; St
rassman,
1984). Esta hipótese é corroborada por dados preliminares (coletados e analisados por médicos que são, eles próprios, membros da UDV) que sugerem que a incidência de psicose entre os membros da UDV é semelhante à da população brasileira em geral (Lima & Tófoli, 2011). Não se confirmaram quaisquer mortes como diretamente atribuíveis ao uso da ayahuasca (Gable, 2007).
Além de indicarem ausência geral de dano proveniente do uso religioso da ayahuasca, os estudos biomédicos e etnográficos também produziram provas preliminares em favor dos potenciais terapêuticos da ayahuasca ou seus constituintes para atenuar problemas relativos ao abuso de drogas (Grob et al., 1996; Labate et al., 2010), bem como transtornos de humor e ansiedade (Fortunato et al., 2010; Santos et al., 2007). O estudo da ayahuasca poderia, assim, contribuir para avanços na etnofarmacologia e as ciências cognitivas (Shanon, 2002). Tais estudos são, entretanto, severamente comprometidos quando essas tradições enfrentam a ameaça de sanções legais. O governo federal dos EUA, por meio do Serviço de Saúde Indígena, reconhece a administração das cerimônias de peiote da NAC como um tratamento eficaz e reembolsável para a dependência de drogas (Calabrese, 2004). Este é um interessante exemplo sobre o potencial de pesquisas etnofarmacológicas conduzidas em grup
os
religiosos que fazem uso sacramental de plantas psicodélicas em resultar em terapias oficialmente aceitas e resultados positivos.
A NAC tinha aproximadamente 80 anos quando La Barre et al. publicaram sua “Declaração sobre o Peiote”, denunciando uma campanha política preconceituosa e que induz a erro para tornar ilegal esta tradição religiosa minoritária. Com a proteção legal a ela oferecida, não apenas por motivos médicos, mas também por razões culturais e históricas, a NAC evoluiu nas últimas décadas, tornando-se uma tradição religiosa estável e intergeracional, praticada em toda a América do Norte e que oferece a seus membros experiências espirituais profundamente significativas e benéficas por meio da ingestão ritualizada de uma poderosa planta psicodélica (Stewart, 1987).
Hoje em dia, a forma do uso ritual da ayahuasca que passou a ser conhecido como o das religiões ayahuasqueiras tem igualmente cerca de 80 anos. No Brasil, as religiões ayahuasqueiras foram amplamente autorreguladas em decorrência de investigações do governo federal, que tiveram início na década de 1980, e as quais por diversas vezes constataram que essas religiões contribuem de maneira benéfica para as comunidades nas quais estão inseridas (Labate & Feeney, 2012; Conad, 2010). No Brasil, essas religiões não apenas têm permissão para suas práticas, mas progressivamente vêm sendo reconhecidas como patrimônio cultural, como na declaração de 2006 que reconhece algumas construções do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (a mais antiga religião ayahuasqueira) como parte do “patrimônio histórico” do estado do Acre. De maneira similar, em 2008, o conhecimento e uso tradicionais da ayahuasca pelas comunidades amazônicas nativas foram considerados p
arte do
patrimônio nacional peruano (Labate & Goldstein, 2009). As religiões ayahuasqueiras atualmente praticam sua fé com graus variados de permissão ou tolerância governamental no Canadá, na Holanda, na Espanha e vários outros países em todo o mundo (Labate & Jungaberle, 2011), sem falar nos Estados Unidos, onde a UDV saiu vitoriosa perante a Suprema Corte Norte-Americana em 2006, e o Santo Daime ganhou um processo em nível de tribunal de recurso no estado de Oregon em 2009. Ambas as igrejas, posteriormente, receberam licenças federais para importar e consumir ayahuasca em seus rituais (Labate, 2012). Esta expansão foi auxiliada pelo fato de que o Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas (INCB) não considera a ayahuasca como controlada sob a Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas, quer a de 1971, quer a de 1988 (Tupper & Labate, 2012; UNINCB, 2011).
À luz desses fatos – de que o uso ritualizado da planta psicodélica expandiu-se para fora da Amazônia nas últimas décadas, de que os dados disponíveis sugerem de maneira consistente que essas práticas são razoavelmente seguras e que, além do mais, as considerações de segurança médica e pública devem ser contrabalançadas com considerações sócio-históricas e de direitos humanos, tal como o direito universal de liberdade de religião – instamos as autoridades regulatórias nos países onde as religiões ayahuasqueiras estão atualmente se instalando a demonstrar tolerância e garantir a esses grupos o grau necessário de liberdade jurídica e envolvimento respeitoso, para que eles possam continuar a evoluir e se desenvolver como contribuintes responsáveis e seguros para a sociedade contemporânea multicultural e globalizada.
Referências Bibliográficas:
Barbosa, P. C. R.; Cazorla, I. M.; Giglio, J. S.; Strassman, R. (2009). A six-month prospective evaluation of personality traits, psychiatric symptoms and quality of life in ayahuasca-naive subjects. Journal of Psychoactive Drugs, 41(3), 205-212.
Brissac, S. (1999). A estrela do norte iluminando até o sul. Uma etnografia da União do Vegetal em um contexto urbano (Mestrado em Antropologia Social). Rio de Janeiro: UFRJ/ Museu Nacional.
Calabrese, J. D. (2004). The Supreme Court versus peyote: Consciousness, cultural psychiatry and the dilemma of contemporary subcultures. Anthropology of Consciousness, 12 (set.-dez.), 4-19.
Callaway, J. C.; McKenna, D. J.; Grob, C. S.; Brito, G. S.; Raymon, L. P.; Poland, R. E. et al. (1999). Pharmacokinetics of Hoasca alkaloids in healthy humans. Journal of Ethnopharmacology, 65(3), 243-256.
Church of the Holy Light of the Queen v. Holder, No. 1:08-cv-03095-PA [D. Or., 6 janeiro 2012]. Disponível em: http://www.bialabate.net/wp-
Silveira, D. X. da; Grob, C. S.; Dobkin de Rios, M.; Doering-Silveira, E.; Alonso, L.K.; Tacla, C. et al. (2005). Ayahuasca in adolescence: a preliminary psychiatric assessment. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 129.
Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad). (2010). Resolução n. 1. 25.01.2010. Diário Oficial da União.
Dawson, A. (2007). New era – New religions: religious transformation in contemporary Brazil. Ashgate: Aldershot.
Dobkin de Rios, M.; Grob, C. S.; Lopez, E.; Silveira, D. X. da; Alonso, L. K.; Doering-Silveira, E. (2005). Ayahuasca in adolescence: qualitative results. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 135–139.
Doering-Silveira, E.; Grob, C. S.; Dobkin de Rios, M.; Lopez, E.; Alonso, L. K.; Tacla, C. et al. (2005). Report on psychoactive drug use among adolescents using ayahuasca within a religious context. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 141-144.
Doering-Silveira, E.; Lopez, E.; Grob, C. S.; Dobkin de Rios, M.; Alonso, L. K.; Tacla, C. et al. (2005). Ayahuasca in adolescence: a neuropsychological assessment. Journal of Psychoactive Drugs, 37(2), 123-128.
Fábregas, J. M.; González, D.; Fondevila, S.; Cutchet, M.; Fernández, X.; Barbosa, P. C. R. et al. (2010). Assessment of addiction severity among ritual users of ayahuasca. Drug and Alcohol Dependence, 111(3), 257–261.
Fortunato, J. J.; Réus, G. Z.; Kirsch, T. R.; Stringari, R. B.; Fries, G. R.; Kapczinski, F. et al. (2010). Chronic administration of harmine elicits antidepressant-like effects and increases BDNF levels in rat hippocampus. Journal of Neural Transmission, 117, 1-7.
Gable, R. S. (2007). Risk assessment of ritual use of oral dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids. Addiction, 102(1), 24–34.
Grob, C. S.; McKenna, D. J.; Callaway, J. C.; Brito, G. S.; Neves, E. S.; Oberlaender, G. et al. (1996). Human psychopharmacology of Hoasca: A plant hallucinogen used in ritual context in Brazil. The Journal of Nervous and Mental Disease, 184(2), 86-94.
Halpern, J. H.; Sherwood, A. R.; Hudson, J. I.; Yurgelun-Todd, D.; Pope Jr.; H. G., (2005). Psychological and cognitive effects of long-term peyote use among Native Americans. Biological Psychiatry, 58, 624–631.
Halpern, J. H.; Sherwood, A. R.; Passie, T.; Blackwell, K. C.; Ruttenber, A. J. (2008). Evidence of health and safety in American members of a religion who use a hallucinogenic sacrament. Medical Science Monitor, 14(8), SR15-SR22.
Haywood, P. (2011). County rejects temple for UDV. The New Mexican. Disponível em: http://www.santafenewmexican.
Jones, R. T. (2009). Hallucinogen-related disorders. In: Sadock, B. J.; Sadock, V. A.; Ruiz, P. (Eds.). Kaplan and Sadock’s comprehensive textbook of psychiatry. 9. ed. Philadelphia: Lippincott Williams and Wilkins, p. 1331–1340.
La Barre, W.; McAllester, D. P.; Slotkin, J. S.; Stewart, O. C.; Tax, S. (1951). Statement on peyote. Science, 114(2970), 582-583.
Labate, B. C. (2012). Paradoxes of ayahuasca expansion: The UDV-DEA agreement and the limits of freedom of religion. Drugs: Education, Prevention and Policy, 19(1), 19-26.
_______; Feeney, K. (2012). Ayahuasca and the process of regulation in Brazil and internationally: Implications and challenges. International Journal of Drug Policy, 23 (2): 154-161
_______; Goldstein, I. (2009). Ayahuasca – From dangerous drug to national heritage: An interview with Antonio A. Arantes. International Journal Transpersonal Studies, 28, 53-64.
_______; Jungaberle, H. (Eds.). (2011). The internationalization of ayahuasca. Zurich: Lit Verlag.
_______; MacRae, E. (Eds.). (2010). Ayahuasca, ritual and religion in Brazil. London: Equinox.
_______; Rose, I. S.; Santos, R. G. (2008). Religiões ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico. Campinas: Mercado de Letras.
_______; Santos, R. G.; Anderson, B.; Mercante, M.; Barbosa, P. C. R. (2010). The treatment and handling of substance dependence with ayahuasca: Reflections on current and future research. In: Labate, B. C.; MacRae, E. (Eds.). Ayahuasca, ritual and religion in Brazil. London: Equinox. p. 205-227.
Lima, F. A. S.; Tófoli, L. F. (2011). An epidemiological surveillance system by the UDV: Mental health recommendations concerning the religious use of Hoasca. In: Labate, B. C.; Jungaberle, H. (Eds.). The internationalization of ayahuasca. Zurich: Lit Verlag. p. 185-199.
MacRae, E. (1992). Guiado pela Lua. Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo Daime. São Paulo: Brasiliense.
Mercante, M. (2010). Images of healing: Spontaneous mental imagery and healing process of the Barquinha, a Brazilian ayahuasca religious system. Saarbrücken: Lambert Academic Publishing.
Pinto, J. P. (2010). Estudo sobre alterações neurofuncionais após ingestão de ayahuasca (Mestrado em Saúde Mental). Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto.
Pires, A. P.; Oliveira, C. D.; Yonamine, M. (2010). Ayahuasca: uma revisão dos aspectos farmacológicos e toxicológicos. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada, 31(1), 15-23.
Riba, J.; Rodríguez-Fornells, A.; Urbano, G.; Morte, A.; Antonijoan, R.; Montero, M. et al. (2001). Subjective effects and tolerability of the South American psychoactive beverage Ayahuasca in healthy volunteers. Psychopharmacology, 154(1), 85-95.
Rommelman, N.; Mesh, A. (2011). Children of a higher God. WWeek. Disponível em: http://www.wweek.com/portland/
Santos, R. G.; Landeira-Fernandez, J.; Strassman, R. J.; Motta, V.; Cruz, A. P. M. (2007). Effects of ayahuasca on psychometric measures of anxiety, panic-like and hopelessness in Santo Daime members. Journal of Ethnopharmacology, 112(3), 507-513.
Santos, R. G.; Valle, M.; Bouso, J. C.; Nomdedéu, J. F.; Rodríguez-Espinosa, J.; McIlheny, E. H. et al. (2011). Autonomic, neuroendocrine, and immunological effects of ayahuasca: A comparative study with D-amphetamine. Journal of Clinical Psychopharmacology, 31(6), 717-726.
Shanon, B. (2002). The antipodes of the mind: Charting the phenomenology of the ayahuasca experience. New York: Oxford University Press.
Stewart, O. C. (1987). Peyote religion: A history. Norman, OK: University of Oklahoma Press.
Strassman, R. (1984). Adverse reactions to psychedelic drugs: A review of the literature. The Journal of Nervous and Mental Disease, 127(10), 577-595.
Strassman, R. J. (1996). Human psychopharmacology of N,N-dimethyltryptamine. Behavioural Brain Research, 73(1-2), 121-124.
The Sun. (2010). Mind-busting jungle drug hits UK. TheSun.co.uk.
Tupper, K. W. (2011). Ayahuasca, entheogenic education and public policy (Dotourado em Educação). University of British Columbia.
Tupper, K. W.; Labate, B. C. (2012). Plants, psychoactive substances and the INCB: The control of nature and the nature of control. Human Rights and Drugs,2(1), 17-28.
UK Border Agency. (2010). UK Border Agency seizes hallucinogenic drug sent in post. Disponível em: http://www.ukba.homeoffice.
United Nations. (1971). Convention on psychotropic substances. United Nations. Disponível em: http://www.incb.org/pdf/e/
United Nations International Narcotics Control Board. (2011). Report of the International Narcotics Control Board for 2010.UN Publication sales No. E.11.XI.1. Disponível em: http://www.incb.org/pdf/
Brian T. Anderson (**)
Stanford School of Medicine, Stanford, USA
Beatriz C. Labate
Institute of Medical Psychology, Heidelberg University, Heidelberg, Germany
Matthew Meyer
Department of Anthropology, University of Virginia, Charlottesville, USA
Kenneth W. Tupper
School of Population and Public Health, University of British Columbia, Vancouver, Canada
Paulo C.R. Barbosa a,b
a) Departamento de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, BA, Brasil
b) Department of Psychiatry, University of New Mexico, Albuquerque, USA
Charles S. Grob a,b
a) Department of Psychiatry, Harbor-UCLA Medical Center, Torrance, USA
b) Department of Pediatrics, Harbor-UCLA Medical Center, Torrance, USA
Andrew Dawson
Department of Politics, Philosophy & Religion, Lancaster University, Lancaster, UK
Dennis McKenna
Center for Spirituality and Healing, University of Minnesota, Minneapolis, USA
28.6.12
O racismo motivou a ilegalidade da maconha
Por Cristiano Medri,
publicado no jornal Folha de Londrina.
A maconha tem sido utilizada medicinalmente e recreativamente por toda a história da humanidade, desde a China antiga até a nobreza inglesa do século 19. Sua proibição é recente e data de menos de cem anos, e, de modo algum, foi baseada em critérios científicos e de saúde pública, tendo sido baseada em preceitos morais, econômicos e racistas, já que, como era uma planta consumida por negros e mexicanos nos EUA, ficava mais fácil segregar estas pessoas através da criminalização de um hábito destes grupos.
Atualmente, importantes autoridades do meio político e científico advogam a favor da regulamentação do consumo. Dentre eles, temos brilhantes neurocientistas brasileiros, como Sidarta Ribeiro, Renato Malcher, Stevens Rehen e João Menezes. Estes pesquisadores afirmam que a maconha é uma droga muito mais segura e menos viciante do que o álcool e o tabaco, que a teoria da “porta de entrada” não passa de um mito que, absolutamente, não corresponde à realidade da maioria esmagadora dos usuários, que a ideia de que a maconha “mata neurônios”, simplesmente, é falsa, e que a utilização de maconha não danifica o cérebro e não causa alterações cognitivas permanentes.
Pelo contrário, estes pesquisadores citam pesquisas que concluíram que os princípios ativos da maconha possuem efeito neuroprotetor, com potencial de utilização no combate de doenças como parkinson, alzheimer e esclerose múltipla. Ainda, estudos recentes demonstraram que a maconha não aumenta a incidência de câncer de pulmão e não compromete a capacidade pulmonar em longo prazo.
Do ponto de vista social, importantes políticos de países que enfrentam problemas graves com a violência gerada pelo tráfico de drogas, como Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria, Ernesto Zedillo e Bill Clinton, ex-presidentes do Brasil, Colômbia, México e EUA, respectivamente, além de sociólogos e juristas, concluíram, após muitos estudos, que a guerra ao tráfico e a ilegalidade é muito mais danosa à sociedade do que a droga em si.
Esta guerra perseguiu, estigmatizou, prendeu e matou milhares de pessoas, corrompeu governos e polícia, aumentou a truculência policial, atentou contra as liberdades individuais dos cidadãos, estimulou a militarização do planeta e a invasão de países, gastou bilhões de dólares em armas e violência em detrimento de saúde e educação. Há muito mais pessoas morrendo em decorrência desta guerra, muitas destas, inocentes, do que pessoas morrendo diretamente em decorrência do abuso de substâncias ilícitas.
Basta citar os neurocientistas Sidarta Ribeiro e Renato Malcher, que dizem que é simplesmente impossível morrer de overdose de maconha, enquanto a guerra realizada para coibir o seu consumo e a disputa dentro do tráfico já mataram milhares de pessoas no Brasil.
A maconha possui grande potencial de utilização medicinal, no combate aos efeitos da quimioterapia do câncer, no tratamento da AIDS, parkinson, alzheimer, esclerose múltipla, glaucoma, ansiedade, no combate a tumores malignos, doenças inflamatórias, dentre outras. Ao contrário da maconha, o álcool é uma droga que pode matar por overdose, e nem por isto é ilegal, tendo sido definidas formas responsáveis para o seu consumo.
Por outro lado, do mesmo modo que o álcool, estudos mostraram que a maconha não deve ser consumida por crianças e adolescentes, por afetar o desenvolvimento cerebral nestas faixas etárias, e por pessoas com tendência a surtos psicóticos e esquizofrênicos. Mesmo assim, há uma ampla parcela da sociedade, que inclui médicos, psiquiatras e neurocientistas, que advoga que, não apenas a utilização medicinal, mas também a utilização recreativa, feita por adultos saudáveis e de modo responsável, é segura e deve ser regulamentada.
O mais importante de tudo é desobstruir o debate. A guerra total às drogas foi perdida, nunca o mundo combateu tanto as drogas e nunca elas foram tão consumidas. Quando os efeitos de uma proibição são muito piores do que os efeitos da substância proibida, esta proibição é burra e precisa ser revista.
Um debate sem tabus, sem moralismos e demonizações, baseado em ciência, deve ser realizado a fim de encontrar uma nova maneira de lidar com a maconha, de modo a minimizar seus malefícios, inclusive aqueles relacionados à guerra e ao tráfico, e maximizar seus benefícios.
2.2.12
Marcadores:
yemanjá Ezedila Martins Garcia
24.1.12
Amanita Muscaria e o Fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal
Através da perspectiva de John Marco Allegro e de seu livro "The Sacred Mushroom and the Cross" consigo concordar que o álcool na forma de vinho não foi a substância eucarística do sangue de Cristo consagrado na última ceia cristã, e sim o cogumelo Amanita Muscaria como afirma Allegro. Se discertarmos à respeito do diferente efeito que o vinho proporciona, a dormência , a ilusão de bem estar, com o que os cogumelos proporcionam, muitas vezes levando ao inferno e julgando os perversos na sua consciência, e levando os puros ao reinos celestiais. Seria muito mais fácil para a os setores dominantes que constituíram a Igreja católica colocarem uma substância que dopa do que uma substância que acorda para a divindade, que liga a Deus e faz-nos conhecer o bem e o mal.
Será que o fruto do conhecimento do bem e do mal continha um veneno? Será sobre isso que Deus tinha advertido Adão e Eva? "Coma isso e morrerás" parece ser algo venenoso, mas a serpente assegura a Eva que ela não morrerá...\Genesis 3:5-7: “Porque Deus sabe que quando você comer isto, seus olhos irão se abrir, e você será com Deus, conhecendo o bem e o mal”.”O homem agora se tornou um de nós, conhecendo o bem e o mal.” Então o Senhor baniu-os do Jardim do Éden. Deus os puniu por conhecer o bem e o mal? Mas eles não morreram no dia que comeram o fruto proibido, na verdade viveram centenas de anos, de acordo com a Biblia o que a serpente contou a Eva era verdade, e Deus estava mentindo. Por que Deus estava mentindo pra eles? Porque condenar alguem por ter o conhecimento do bem e do mal. As pessoas são encarceradas atualmente por causa de crimes que cometeram resultantes da falta de conhecimento do bem e do mal. A não ser que esses "deuses" queriam dizer para nós o que é certo ou errado, ao invés de deixar que nós soubéssemos a diferença.
Para os gnósticos, Jesus era a serpente sábia que deu o conhecimento ao homem. Fazer do símbolo da maçã "como fruto proibido" é simbólico, pois na verdade ela é perfeita como substutivo para o verdadeiro fruto proibido. A Amanita e a maçã, ambas são frutos de árvore, e vermelhas. Quando você morde a maçã você avista o mesmo branco no interior da Amanita Muscaria. É uma segura representação do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sem dar conhecimento real do verdadeiro fruto, a Amanita Muscaria.
Amanita Muscaria
Marcadores:
amanita muscaria jesus adão e eva eucaristia
Reflexão sobre a "Guerras às Drogas"
Arte de Cliff Maynard
Qual é o mais viciante ingrediente das drogas? É o dinheiro vivo! Você legaliza as drogas e tira o dinheiro disso tudo. A última coisa que os congressistas querem é legalizar as drogas, pois a quantidade de dinheiro que acontece à partir da criminalização é enorme. A indústria fonográfica, que influencia os jovens a quererem as drogas, pela sua garotas lindas, os carros... a droga só existe porque existe um apelo a ser usada, e é através dos clipes e do cinema que o uso é estimulado.
50% dos impostos arrecadados vão para a militarização e segurança nos EUA. É um grande aparato para repressão às drogas, uma grande indústria que se beneficia da venda de armas a equipamentos de segurança para combater e se proteger do que envolve a criminalização das drogas. Após a segunda guerra mundial, os EUA tinha uma aparato fabril gigante voltado a militarização. A guerra fria proporcionou todos investimentos à repressão às drogas, pois a tecnologia foi relocada para as guerras às drogas, para a venda de armas, para as polícias de diversos países que fazem a guerras às drogas e para o contrabando de armas dos traficantes.
Nixon colocou a maconha como a mais perigosa das drogas em 1971 justamente em meio a guerra do Vietnam, pois sabia que os que se opunham a guerra eram os hippies usuários da cannabis. O mesmo aconteceu com os cogumelos e o LSD. Na verdade essas drogas tornam o homem pacifista, não se adequando ao mundo do pós guerra americano que desde sempre foi guerrido, capitalista e espalhando sofrimento por todas as partes do mundo justamente visando o lucro para indústria bélica.
Em 10 anos de proibição do álcool nos anos 20 e 30, a cidade de Chicago e sua polícia se tornaram um antro de corrupção. Hoje existem cartéis que traficam drogas livremente para os EUA através da corrupção da criminalização das drogas. Conheci uma pessoa que seu pai, que trabalhava na CIA, reuniu seus familiares no seu leito de morte e declarou a eles que através do seu livre passe pelas alfandegas, traficou heroína.
Não cabe mais no mundo uma política que retira direitos do cidadão de, se quiser usar certas substâncias, o fazê-lo. A liberdade pode ser absoluta até que não atinja o direito de terceiros.
Além disso, você adulto que vende essas planta pra outro vai ser enquadrado igualmente como um estuptrador ou um assassino!
Essas leis são criacões recentes e “algum dia , quando a descriminalização das drogas for uma realidade, os historiadores olharão para trás e sentirão o mesmo arrepio que hoje nos produz a inquisição da Idade Média”
Marcadores:
guerras as drogas criminalização
John Marco Allegro, Pergaminhos do Mar Morto e os Enteógenos
Afresco representando Adão e Eva com a Árvore da Vida na forma de um cogumelo , 1291 d.C, Capela de Plaincouraulz, Indre, França
Com o livro "The Mushroom and the Cross", John Marco Allegro expõe a mitologia em torno do uso de enteógenos, principalmente a Amanita Muscaria em várias passagens da bíblia. Se lermos a bíblia através da perspectiva que , o corpo de Cristo e o sangue de Cristo na Última Ceia eram na verdade enteógenos, Allegro afirma que faz muito mais sentido. Segundo Allegro, os discípulos de Jesus ingeriam o corpo de Cristo para alcançarem o trono de Deus. Allegro foi perseguido e viu sua carreira ir por água abaixo. Ele era o único secular e agnóstico estudioso dentre os pesquisadores que traduziram os manuscritos encontrados no Mar Morto, em 1947. Os pergaminhos do Mar Morto estavam escritos em Semitico, língua do povo Aramaico . Os Manuscritos do Mar Morto são ainda considerados o maior achado arqueológico da religião Cristã, pois eram textos que não tinham sofrido traduções, e seu conteúdo era aguardado por toda a comunidade científica e religiosa por guardar a real história do cristianismo. À partir disso, os melhores estudiosos da igreja foram selecionados para interpretar os escritos. John Marco Allegro era um filólogo que tinha se graduado com honra em estudos orientais pela universidade de Manchester. Quando fazia seu doutorado em Oxford foi convidado a integrar a equipe de estudiosos dos Manuscrito do Mar Morto. Em 1953. Allegro foi o único a publicar abertamente seus estudos. Segundo Allegro: “Se não uma supressão dos fatos, uma falta de vontade de dizer tudo de uma vez... sempre havia a sensação de que fôssemos cuidadosos o suficiente, que só poderíamos liberar as informações de uma maneira tal que não gerasse hostilidades ou muitos questionamentos..." Em 1968 , Allegro publicou todas as suas traduções dos fragmentos. Nos 15 anos desde que o grupo internacional foi montado, em 1953, Allegro era o único membro a terminar o seu trabalho. Allegro afirmava que a relação com Jesus e os essênios era grande. A originalidade da história cristã estava ameaçada. Sua filha publicou pós morte o livro The Maverick of Dead Sea Scrolls. “Os judeus se perguntvam: Como este homem pode nos dar a sua carne para comer ?(Joao 6:52:56) e Jesus disse a eles: Eu lhes digo a verdade, a não ser que você coma da carne do filho do Homem e beba seu sangue, você não tem a vida em você. Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu irei erguê-lo no último dia. Porque minha carne é a verdadeira comida e meu sangue a verdadeira bebida. Quem comer minha carne e beber meu sangue residirá em mim, e eu nele.” Allegro concordava que a fundação das religiões foram feitas através de experiências PSICODÉLICAS.
Cannabis na História Parte 2
A parceria da cannabis com o homem têm existido há mais de 10.000 anos, desde a descoberta da agricultura. Uma das mais antigas plantas a serem cultivadas, a cannabis tem sido usada de muitas maneiras diferentes através dos tempos: como fonte de fibras de cânhamo; pelo seu óleo; pelo seu princípio psico-ativo; etc…
A classificação botânica tem sido há muito incerta. Botânicos tem entrado em desacordo sobre a família a qual a cannabis pertence. Investigações prematuras puseram a cannabis na família das urticareas (Urticaceae), depois ela se acomodou na família dos figos (Moraceae); a tendência hoje é assiná-la como uma família especial, a Cannabaceae, onde apenas Cannabis e Humulus, o genero do Hops, são membros. Tem havido muita discussão sobre quantas espécies de cannabis existem. Evidências atuais mostram que 3 espécies podem ser reconhecidas. Cannabis Indica, C. Ruderalis e C. Sativa. Essas espécies são distinguidas por diferentes tipos de hábitos de crescimento, e especialmente por uma maior diferença na estrutura do caule. Apesar de todas as espécies possuírem canabinols, elas devem ser possivelmente diferentes na sua estrutura química, mas a evidência ainda não está realmente disponível.
O Vedas indianos cantam para a Cannabis como uma dos divinos nectars, capaz de
dar ao homem boa saúde e longa vida tanto como visões de deuses. A Zend-Avesta, de 600 antes de Cristo menciona uma intoxicante resina, e os Assírios usaram a cannabis como um incenso no século XIX A.C.
Inscrições da dinastia Chou na China, datada de 700-500 a.C, tem uma negativa conotação que acompanha a Shen Nungpanha, a antiga característica da Cannabis, Ma, sugerindo sua espantosa propriedades. Voltando atrás ao lendário imperador, Shen- Nung, 2000 a.C, talvez tenha-se como evidência que os chineses sabiam e provavelmente usavam as propriedades psicoativa nos tempos mais remotos. Foi dito que MA-fen (Hemp fruit), se tomado em excesso, irá produzir alucinações (literalmente ver demônios). Se tomado em longa duração, pode proporcionar comunicação com espíritos e iluminação do corpo. Um sacerdote taoísta escreveu no século XV a.C que a Cannabis era empregada pelos taumaturgos, em combinação com o Ginseng, para ir a tempos futuros. Nesses primeiros tempos, o uso da Cannabis era associado com o xamanismo chinês, mas pelo tempo que a Europa dominou a região 1500 anos depois, o xamanismo entrou em declínio, e o uso da planta para inebriação parece ter sido esquecido. É sabido que o seu uso foi primeiro pelas fontes de fibras. Sabe-se da utilização muito antiga do uso da Cannabis desde os tempos Neolíticos, e hoje é sugerido que a Cannabis é originária da China, e não do Asia central.
Quase 500 a.C, o grego Heródoto descreveu um maravilhoso banho à vapor dos Scynthians, homens agressivos que varreram as direções leste e oeste do transcaucasos. Ele relatou que eles faziam tendas fixando três paus inclinados em direção um do outro e esticavam peles das quais eles arrumavam bem próximas o possível. Dentro da tenda um prato é posto no chão na qual eles põe um número de pedras vermelhas e adicionam algumas sementes de cannabis. Imediatamente as sementes queimam e dá-se um tipo de vapor como nenhum outro vapor pode superar. Os Scythians gritavam de prazer… Apenas recentemente os arqueologistas tem escavado inúmeras tumbas geladas no centro da Ásia, datadas de 500 a 300 a.C., e tem achados tripés e peles, braseiros e carvão com vestígios de folhas de cannabis e frutos. Tem sido aceitado geralmente que a cannabis originou na Ásia Central e foi os Scynthias que os espalharam para a europa ocidental.
Enquanto os gregos e romanos não devem ter usado a cannabis para atigir estados alterados, eles sabiam sobre seus poderes psicoativos e efeitos como droga. Democritus reportou que ela era ocasionalmente bebida com vinho e mirra para produzir estados visionários, e Galen escreveu, no ano de 200 a.C. , era comum dar a cannabis para os hóspedes para promover o riso e o divertimento.
A Cannabis chegou na Europa provinda do norte. Os escritos do romano Lucilius mencionou isso em 120 anos depois de Cristo. Plinio, o velho, ressaltou a preparação e a gradação das fibras de cannabis no primeiro século. Foi achado cordas de cânhamo em sítios romanos na Inglaterra datados de 140-180 a.C. Se os Vikings usaram ou não a cannabis como cordas não é sabido, mas evidências paleológicas indicam que o cultivo da fibra teve um incremento acentuado na Inglaterra desde os primeiros anglo-saxões até os últimos tempos dos Saxões e Normandos – de 400 a 1100 d.C
Henry VIII adotou o cultivo do cânhamo na Inglaterra. A supremacia marítima inglesa durante os tempos elizabetianos aumentou consideravelmente a demanda. O cultivo do cânhamo começou nas colônias britânicas no Novo Mundo, primeiramente no Canadá em 1606, depois na Virginia em 1611. Os peregrinos levaram os plantios para a Nova Inglaterra em 1632. Na América pre-revolucionária, o cânhamo era muito usada para fazer roupas.
O cânhamo foi introduzida quase que independentemente nas colônias espanholas da América do Sul: Chile em 1545, e Peru em 1554.
Não há dúvida que as fibras de cânhamo representa os primeiros usos da cannabis, mas talvez o consumo de suas sementes como alimento pré-datam a descoberta de seu uso fabril. Esses “akenes” (sementes) eram muito nutritivas, e é difícil de imaginar que os homens antigos, constantemente procurando por alimento, teriam perdido essa oportunidade. Achados arqueológicos de akenes cânhamo na Alemanha, datados de 500 a.C, indicam o uso nutricional dessas plantas. Desde os tempos mais remotos até hoje, "Akene Hemp" tem sido usado como alimento no Leste europeu, e nos Estados Unidos como um principal alimento de aves.
O uso cultural-medicinal do cânhamo, frequentemente indistinguível pelo suas propriedades psicoativas, devem ter sido muito cedo usado como uma planta econômica. Os primeiros sinais do uso medicinal da planta é do Imperador chinês Shen-Nung, que há 5 mil anos atrás recomendou a cannabis para a malária, prisão de ventre, dores reumáticas e desordens femininas. Hoa-Glio, outro antigo herbalista, recomendava uma mistura de resina de cânhamo e vinho como um analgésico durante cirurgias. Foi na Índia ancestral que “o presente dos Deuses” foi usado de forma cultural como medicina. Era acreditado para acelerar o pensamento, prolongar a vida, melhorar julgamentos, baixar febres, induzir ao sono, e curar desinteria. Por causa das suas propriedades psicoativas era dado maior valor do que as medicinas que apenas atuavam fisicamente. Muitos sistemas de medicina na Índia prezavam o seu uso. Estatutos médicos como o Sushrata diziam que curava lepra. O Bharaprakasha, de aproximadamente 1600 a.C, descreve como digestivo, afetava o biles, pungente e astringente, descreve como um estimulador de apetite, melhorador de digestão, e para melhorar a voz. O espectro de uso da medicina cannabis na Índia tambem era para combater a caspa e reduzir a dor de cabeça, manias, insônia, doenças venéreas, coqueluche, dor de ouvido, e tuberculose. A fama da cannabis como medicina se espalhou com a planta. Em partes da África seu valor era usado no tratamento de desinteria, malárias e febres. Mesmo hoje em dia, os Hottentots e Mfengu clamam sua eficácia no tratamento de mordidas de cobra, e mulheres Sotho induzem aumento da dilatação antes de darem a luz. A cannabis tem seu valor na medicina e no tratamento terapêutico usados pelos primeiros filósofos clássicos, Dioscorideos e Galen. herbalistas medievais, distiguem o “cânhamo cultivado do cânhamo selvagem (praga)”, recomendando o último “contra nódulos e outros tumours maléficos”, curando desde de tosse a icterícia. Eles observam portanto que o uso demasiado pode causar esterilidade, “secando as sementes da geração” no homem, e leito nos peitos das mulheres.
Um uso interessante no século XVI: derramado nos buracos de minhocas atrairia-as e os pescadores teriam usado este método para colocá-los nos seus anzóis. Os valores da cannabis na cultura das medicinas tem sido estreita com a euforia e a suas propriedades psicoativas. Esse conhecimento é tão antigo quanto o uso como fonte de fibras. Homens primitivos, tentando todos os tipos de plantas como alimento, devem ter conhecido o efeito extático-eufórico do cânhamo, uma intoxicação introduzindo ele para outro plano de mundo, guiando para fé religiosas. Apesar de "hoke" ser a substância mais utilizada como psicoativo, seu uso puramente como narcótico, com excessão da Asia, aparece ser não tão antiga. Nos tempos clássicos suas propriedade eufóricas eram, entretanto, reconhecidas. Em Tebas, o cânhamo era feito numa bebida que era para ser parecido com as propriedades do ópio. Gales reporta que os bolo de cannabis, se comido em excesso, era intoxicante. O uso como inebriante parece ter sido espalhado a leste e a oeste por hordas de bárbaros da Ásia Central, especialmente os Scynthians, que tem uma profunda influência cultural na antiga Grécia e no leste europeu. E o conhecimento dos efeitos psicoativos do cânhamo vai longe na história da Índia, como indicado pela sua profunda mitologia e fé sobre as plantas. Uma preparação, Bhang, era tão sagrada que foi pensado para deter o mal, trazer sorte, e limpar os pecados do homem. Pisar em cima das folhas dessa planta sagrada poderia trazer desgraça e prejuízos, e juramentos sagrados eram selados sobre o cânhamo. A bebida preferida de Indra, era feita de cannabis, e o mandamento de Shiva pedia que a palavra Ghangi fosse repetida em hinos durante a semeadura, a capina, e a colheita da planta sagrada. Conhecimento e uso das propriedades intoxicantes foram eventualmente espalhadas pela Ásia menor. Cânhamo era empregado como incenso na Assíria no primeiro milênio a.C, sugerindo seu uso como inebriante. Apesar de não haver nenhuma direta menção da planta na Bílblia, muitas passagens obscuras devem referir tangencialmente aos efeitos das resinas da cannabis ou hashishi.
Foi talvez nos Himalaias e no platô tibetano que a preparação da cannabis assumiu sua maior importância no contexto religioso. Bhang é um preparado suave: folhas secas ou brotos florecendo são picados e consumidos como um bolo, conhecidos como maa-jun, ou na forma de chá. Ganja é feita da rica resina seca que são prensadas numa compacta massa e guardadas por muitos dias para induzir quimicamente mudanças. A maioria da Ganja é fumada com tabaco ou Datura. Charas consiste na resina propriamente dita, uma massa amarronzada que geralmente é empregada para se fumar em misturas.
Os tibetanos consideram a cannabis sagrada. Uma tradição budista chamada Mahayana mantém que durante os seis passos do ascetismo que guiam à iluminação , Buda viveu com uma semente de Cannabis por dia. Ele é geralmente retratado como “folhas de Soma” em sua tigela e o misterioso narcótico Soma tem sido ocasionalmente identificado com o cânhamo. No Tantra do Budismo do Himalaia no Tibet, a cannabis é usada significativamente na meditação, usado como facilitador para a meditação profunda e alta conscientização. Tanto medicinal e recreativamente, o cânhamo vem sendo usado nesta região e a planta é concedido como uma necessidade diária.
O folclore mantém que o uso da cannabis foi introduzido na Pérsia pelos peregrinos indianos durante o reinado de Khursu (531.579 a.C), mas é sabido que os Assírios usaram o cânhamo como um incenso no primeiro milênio depois de Cristo. Apesar de ser proibido pelo Islan, hashishi espalhou-se consideravelmente pela Ásia menor. Em 1378, autoridades tentaram banir do território árabe com punições severas.
A cannabis estendeu-se cedo e largamente desde a Ásia menor para África, parcialmente pela pressão islâmica, mas o uso do cânhamo transcende regiões islâmicas. É largamente dito que a Cannabis tenha sido introduzido por escravos Malayos. Comumente conhecida como Kif ou Dagga, a planta tem entrado nas culturas nativas antigas em contextos sociais e religiosos. Os Hottentots, Bushmen, e Kaffirs usaram o cânhamo por séculos como medicina e como intoxicante. Numa antiga cerimonia tribal no vale de Zambesi, participantes inalavam vapores latentes de cânhamo. Depois tubos vermelhos e cachimbos foram empregados, e a planta era queimada nos altares. As tribos Kasai do congo tem revivido um antigo culto Riamba na qual o cânhamo substituia antigos fetiches e símbolos, e eram elevados aos deuses como proteção a algum mal espiritual. Tratados eram selados com tragadas de fumaça em cachibos calabash. Cultos de fumar a cannabis e cheirar o Hashishi existe em muitas partes da Africa, especialmente perto do Lago Victoria.
Cânhamo tem se espalhado por muitas regiões do novo mundo, mas com poucas excessões a planta não penetrou significativamente nas muitas religiões nativas americanas e sua cerimônias. Há porem, excessões, como a do uso da Rosa Maria pelos índios Tapecanos no noroeste do México, que ocasionalmente empregam a cannabis quando o peyote não está disponível. Foi recentemente aprendido que os índios no estado de Veracruz, Hidalgo, e Puebla praticam uma cerimônia de cura comunal com uma planta chamada Santa Rosa, identificada como Cannabis Sativa, que é considerada ambas plantas e um sagrado intercessor da Virgem. Apesar da cerimônia ser baseada principalmente com elementos cristãos, a planta é adorada como uma divindade e é acreditado ser viva e ser a representação do coração de Deus. Os participantes acreditam que a planta pode ser perigosa e pode assumir a forma de uma alma humana, fazer ele adoecer, irritá-lo e até mesmo causar sua morte.
Sessenta anos atrás quando os trabalhadores mexicanos introduziram o hábito de fumar marijuana nos EUA, ela se espalhou pelo sul, e pelo ano de 1920 foi estabelecida em Nova Orleans, ficando confinada primeiramente nos guetos das minorias negras. O contínuo costume se espalhou nos EUA e na Europa e seu resultado é ainda controverso e sem uma solução.
A Cannabis Sativa foi oficialmente inserida na farmacopéia dos EUA em 1937, recomendada para diversas desordens, especialmente como um suave sedativo. Não é mais uma droga oficial, apesar de pesquisas médicas verem um potencial de alguns constituintes canabilolicos ou seus semi-sintéticos serem muito ativos, principalmente nos efeitos colaterais da terapia de câncer.
Os efeitos psicoativos da Cannabis variam largamente, dependendo da dosagem, a preparação e o tipo da planta usada, o método de administração, a personalidade do usuário e o ambiente social-cultural. Talvez a mais comum caracteristica é o estado de sonho. Eventos antigos esquecidos são lembrados e pensamentos ocorrem em sequências desrrelacionadas. A percepcão do tempo, e ocasionalmente do espaço, são alteradas. Visões e audições as vezes perseguem o usuário quando se usa grandes doses. Euforia e excitamento, alegria interior – as vezes com risadas- são típicos. Em alguns casos, um final sentimento de depressão é sentido.
Fonte: Plants of the Gods
Their Sacred, Healing, and Hallucinogenic Powers
Richard Evans Schultes, Alberto Hoffmann & Christian Ratsch
1992
2nd edition
Healing Arts Press 1998
Revised and Expanded Edition
Marcadores:
cannabis na história parte 2
Assinar:
Postagens (Atom)







