23.4.07

A RESPIRAÇÃO DA TERRA

Pintura de Cândido Machado

Texto de Wesley Aragão de Moraes

Rudolf Steiner se utiliza desta expressão,”respirar da terra”, de uma forma algo poética. Na verdade, enquanto um hemisfério expande, o hemisfério oposto contrai, na alternância entre estações opostas. Assim, considerando apenas um dos hemisférios, há um jogo rítmico de expansão e contração que é como um tipo de sístole-diástole, ou inspiração-expiração.
Steiner esteve de acordo com as mitologias e crenças dos povos tribais e dos povos antigos ao dizer que a Terra é um ser vivente, dotada de sensibilidade, de alma e de processos característicos de um ser vivo. Aliás, também de acordo com as modernas idéias ecológicas de James Lovelock e de outros cientistas naturais, os quais também partem do princípio que o planeta como um todo age como se fosse vivo.
Assim sendo, a Terra, ou como os antigos gregos a chamariam, Gaya, respira e vive. E sua respiração é polarizada entre dois hemisférios. Sua alma planetária-no que Steiner incluiria o enorme corpo vital do planeta e o seu corpo anímico- seria aquilo que os platônicos e alquimistas conheciam por Anima Mundi, a Alma do Mundo.
A alma da Terra,Gaya, Deusa-Mãe de vários mitos antigos, sofre uma expansão nas estações quentes e sofre uma contração nas estações frias. A alma da Terra se expande no verão, e no equador, e se contrai no inverno, e nos pólos. Nas regiões temperadas, a Terra alterna ritmicamente expansão-verão e contração-inverno, passando pelas estações intermediárias, outono e primavera. Algo semelhante também ocorre na alternância entre dias e noites: De dia, expansão; de noite, contração. E também ocorrem expansões e contrações da Alma da Terra devidas ao ciclo da Lua.
Quando a Alma da Terra se expande, afirma Steiner, é como se ela adormecesse e entrasse numa espécie de “êxtase”, em comunhão com o Cosmos, em comunhão onírica com o Sol, com a lua, e com os planetas, seus irmãos.Também poderíamos falar numa espécie de”orgasmo de Gaya”, orgasmo de verão, uma vez que a palavra ‘orgasmo’ provém do grego orguéin, que significa “sair”,”exalar”...orgasmo da Terra começa na primavera, após a contração do inverno naquele hemisfério, e a primavera em seu tapete florido, é o cio da Terra, o sonho erótico de Gaya desejando o Cosmo para o conúbio que faz a Vida das espécies perpetuar.Os gregos diziam que Gaya deseja o Cosmos, Uranos, o Céu Estrelado, e que ela copula com ele, e desta cópula cósmica é que a Terra engravida e surgem novos seres vivos.
Quando, após o verão, a Terra novamente começa a se contrair, do outono até o inverno,num hemisfério, isto seria o acordar da Terra. Ela desperta aos poucos de seu sonho orgásmico de verão e agora sua Alma Telúrica volta a se “encaixar” novamente na parte física do planeta- o que significa um despertar, uma tomada de consciência.
Todo processo de êxtase, de prazer, de verão, é um expirar um excarnar, um entregar-se ao Cosmos, em comunhão com o Infinito. Todo processo de acordar,de despertar na forma material, é uma contração, um tipo de dor, um inspirar pra dentro.
Assim, os antigos sentiam que a Terra entra em êxtase no verão, iniciando seu ciclo de prazer na primavera, quando animais e plantas em entram no cio. E os antigos sentiam que a Terra acorda no inverno, iniciando seu despertar no outono. Assim, os antigos realizavam festejos, rituais, procissões, celebrações e construíam seus mitos em cima dos movimentos da Alma do Mundo, dos movimentos da Deusa Mãe, diante o Cosmo, o Deus Pai. As festas do solstício(verão e inverno) e de equinócio (primavera e outono) seriam, dessa forma, marcos da respiração da Alma da Terra. E estes marcos seriam importantes para as práticas agrícolas, para a pecuária para a semeadura para a previsão de caça e de chuvas, para a fertilidade das mulheres (imagens miniaturizadas da Deusa Mãe) e para todas as atividades culturais. Tais rituais sazonais são, portanto, pré-cristãos e existentes desde que o homem é homem. A religião cristã veio dar a eles um significado cristológico próprio, considerando, conforme a cristologia esotérica de Steiner afirma, que o Cristo é uma força divina, cósmica e que se insere na respiração da Terra, a partir do chamado “ Mistério do Gólgota”.A Terra estaria sendo cristificada aos poucos, através da permeação de seu ser planetário por uma força solar, divina, que lhe dá um caminho evolutivo em direção a uma meta cósmica pré-figurada: a chamada “força crística”. Essa força teria entrado no dinamismo da Terra após a descida de Cristo e estaria, assim, em pleno processo de transformação do planeta.Este é o motivo cristológico fundamental que centraliza toda a visão evolutiva cosmológica de Rudolf Steiner.


Rudolf Steiner nasceu em Kraljevec, 27 de Fevereiro de 1861 — morreu em Dornach, Suiça 30 de Março de 1925).
Após terminar os seus estudos dedicou-se a partir de 1883 a editar as obras científicas de Johann Wolfgang von Goethe. Tornou-se profundo conhecedor da obra de Goethe, escrevendo inúmeras obras sobre este, dedicando-se à explicação do pensamento do autor alemão. Ao mesmo tempo escrevia sobre assuntos filosóficos.
Após um período de vivência em Berlim, Alemanha, no qual sobreviveu como escritor de uma revista literária, Steiner ininterruptamente aderiu a uma trajetória de conferencista e escritor,desenvolvendo a a Ciência Espiritual Antroposófica, ou Antroposofia. Inicialmente a expôs ligado à Sociedade Teosófica e, desligado desta, no que fundou sob o nome de Sociedade Antroposófica.


Em Dornach construiu a sede da Sociedade Antroposófica, denominada Goetheanum. O Goetheanum foi a sede da Escola Superior Livre De Ciência Espiritual e foi destruído por um incêndio em 1922. Foi reconstruído e teve participação importante na obra de Steiner como um grande centro de contribuições para os campos do Conhecimento Humano. Steiner, entre outras obras neste, dedicou-se principalmente aos campos da organização social, Arquitetura, Pedagogia, Medicina, Farmacologia, Agricultura e do tratamento de crianças com a Síndrome de Down.
Oferecendo alternativas além das condições materiais de soluções de todos os problemas dos quais tratou, Steiner obteve reconhecimento mundial. Em todos os continentes surgiram centros de atividades antroposóficas como desdobramentos práticos da Ciência Espiritual por ele desenvolvida.

Um comentário:

Tatiana Waleska disse...

Olá, parabéns pelo texto "A respiração da Terra" sobre a teoria de Rudolf Steiner. gostaria de saber mais a respeito deste autor.
Obrigada
Tatiana